O último cinema de Bonsucesso

Em tempos de Oscar, o debate sobre a qualidade dos filmes brasileiros entra em cena. Em Bonsucesso, o Centro Cultural Cinema Brasil, exibe filmes e documentários brasileiros gratuitamente.

Por: Patrick Barbosa FEV. 29, 2016

É compreensível o discurso de que em Bonsucesso não há opções gratuitas de lazer. Todavia, isso não é completamente verdade. Por isso, resolvi fazer uma visita no Microcine Brasil, em Bonsucesso, que exibe gratuitamente filmes nacionais.

Após atravessar a porta metálica, fui recepcionado por quatro senhoras que me deram uma ficha de cadastro de visitantes para preencher. Apresentaram-me a biblioteca do local enquanto aguardava a sessão começar. Algo ali chamou minha atenção. O livro Sermões, do padre jesuíta Antônio Vieira, que já me foi recomendado em uma consulta médica. “Quase que virei católico”, me alertou o médico.

Zander Carolina Machado, moradora do bairro há 41 anos e frequentadora assídua do local, me acompanhou durante a sessão. “Ele usava muita cocaína”, me contou Zander, em alusão ao Cartola, enquanto assistíamos o documentário, “Cartola – Música para os Olhos”.

Após alguns minutos do início, um pacote de pipoca chegou até nós. O ambiente, com capacidade para mais de 50 pessoas, banheiros, segundo andar, e todo o serviço incluído, gratuitamente, me deixava surpreso durante a sessão; e tudo isso tão próximo, no bairro onde moro. No Shopping mais próximo, o mesmo programa não sairia por menos de 35 reais.

4 - Sessão com estudantes da região.
Sessão com estudantes da região. (Foto: Nancy Santos/Cinebrasil)

Descobri um Cartola, que nasceu na Mangueira, e andava pela mesma Central do Brasil que eu. De origem pobre, que alcançou melhor condição de vida após seguir a carreira musical. Isso em 1930, quando o samba criava raízes nas periferias do Rio de Janeiro e caía no gosto da classe média carioca. E isso tem tudo a ver com a atualidade; hoje em dia o ritmo é o funk.

A sessão acabou, e eu já amigo de dona Zander, fui apresentado à Nancy Santos Marins, coordenadora social do projeto Microcine Brasil. Em entrevista, ela explicou que o projeto Cinebrasil deu início nas sessões presenciais em 2005. Revivendo a cultura do cinema de rua. Segundo ela, Bonsucesso já abrigou diversos cinemas e teatros.
3 - Nancy Santos Marins, coordenadora social
Nancy Santos Marins, coordenadora social. (Foto: Cinebrasil)

Nancy aceita sugestões. No entanto, é rígida com a regra de só exibir filmes nacionais. O local foi elevado a ponto de cultura. Grande entusiasta da cultura cinematográfica brasileira, ela explica que o “pornochanchada” foi um dos únicos gêneros cinematográficos que sobreviveram às censuras e ameaças do regime militar de 1964.

Embora a produção nacional tenha se aperfeiçoado com a chegada da democracia, o estigma ainda é grande. “Filme brasileiro é muito mais do que palavrões”, garante Nancy, que prioriza a exibição de filmes e documentários que estimulem a reflexão.

A valorização do indígena e a cultura afro-brasileira também é tema de debates e reuniões no local. Durante a semana, O Cinebrasil exibe filmes para turmas de escolas públicas da região. As salas ficam exclusivas para os alunos.

2 -Mostra Cine Índio Brasil
Mostra Cine Índio Brasil. (Foto: Nancy Santos/Cinebrasil)

Fascinado pela biblioteca, fui informado por dona Zander, que poderia levar qualquer livro para casa e devolver quando terminar de ler. Despedi-me com a promessa de retornar no próximo sábado; entusiasmado com a ideia, venho sugerir aqui os filmes brasileiros que gostaria de ver no Cinebrasil:

01 – Junho – O Mês que Abalou o Brasil;
02 – Mauá – O Imperador e o Rei;
03 – O Menino e o Mundo;
04 – Bicho de Sete Cabeças;
05 – Entreatos;
06 – O Brasil Deu Certo? E Agora?;
07 – Estrada 47;
08 – Amor em Sampa;
09 – São Paulo, Sociedade Anônima;
10 – Sob Vinte Centavos.

O Cinebrasil exibe filmes gratuitamente todos os sábados às 16h e 17h. Gostaria de recomendar algum filme? Entre em contato. Gostaria de escrever uma matéria aqui? Nos envie uma mensagem. O Pauta de Bonsucesso é um espaço democrático que apoia a cultura e o desenvolvimento da região.

P.S. — Parabéns Leonardo DiCaprio!

Patrick Barbosa é jornalista, tem 22 anos, mas faz 23 em março.
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