Professor indicado ao Nobel foi um dos proprietários do conjunto ‘Castelinho’, em Olaria

Otto Richard Gottlieb foi um dos autores do processo da reintegração de posse do conjunto habitacional ‘Castelinho’, em Olaria.

 

Por: Patrick Barbosa JUN. 20, 2016

 

ENTENDENDO O CASO

Após ganhar destaque na grande mídia, a reintegração de posse efetuada com o apoio da Polícia Militar, no conjunto habitacional popularmente conhecido como ‘Castelinho’, em Olaria, ganhou a comoção regional devido às 54 famílias despejadas do imóvel.

O processo corria desde 2001, ano em que a família Gottlieb registrou boletim de ocorrência. Nesses 15 anos de processo, diversos equívocos jurídicos da parte dos réus contribuíram para que os autores comprovassem a posse do conjunto. Foi então que na manhã do dia 18 de abril de 2016, oficiais de justiça lograram êxito na reintegração de posse do conjunto habitacional.

Após o feito, moradores que habitavam o conjunto realizaram sucessivos protestos, conseguindo apoio de associações de desabrigados e partidos políticos ligados a causas sociais.

O advogado da Frente Internacionalista dos Sem Teto (FIST), André de Paula, criticou a forma como a desapropriação foi feita, em entrevista ao jornal Extra, evidenciando a ausência de representantes do Conselho Tutelar, Secretaria de Ação Social, de Justiça e Direito dos cidadãos, entre outros órgãos.

 

A ORIGEM DO IMÓVEL

Fugindo da ascensão do regime anti-semita que ficou conhecido na história como nazismo, Otto Richard Gottlieb de origem judaica, saiu da atual Republica Tcheca para a Inglaterra aos 16 anos de idade, no ano de 1936. Enquanto isso, seus pais e os irmãos vieram para o Brasil – Dora Gottlieb, mãe de Otto, era natural de Petrópolis, Rio de Janeiro. Três anos depois, Otto veio para o Brasil e aos 21 optou pela nacionalidade brasileira.

Assim que se estabeleceu no Rio de Janeiro, Adolf Gottlieb, pai de Otto, montou uma fábrica que transformava óleos da Amazônia em produtos químicos.

OLARIACONJUNTO
Imóveis na rua Noêmia Nunes, em Olaria. (Foto: Anna Ventura/Pauta Popular)

 

A VIDA DE OTTO

Otto trabalhou lá por 10 anos. Formou-se no curso de Química Industrial pela atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.

700 artigos científicos, diversos convites para lecionar fora do país, primeiro profissional de Química a receber o Prêmio Fritz Feigl, Doutor Honoris Causa e Professor Honoris Causa em diversas faculdades, condecoração com a Ordem Nacional do Mérito Científico, indicação ao Nobel de Química em 1998, 1999 e 2000, são alguns dos itens que caracterizam o currículo do químico e cientista brasileiro, Otto Richard Gottlieb.

 

A HERANÇA DOS IMÓVEIS

Com a morte do pai em ano desconhecido, e da mãe em 1968, Otto e os irmãos herdaram os imóveis localizados no Rio de Janeiro, em Olaria, em 1987. Até o ano de sua morte, em 2011, Otto nunca veio a realizar um inventário que incluísse a posse dos imóveis. Passava a maior parte do tempo na biblioteca que construiu com recursos próprios, com aproximadamente 2.000 títulos, em seu imóvel em Copacabana.

Foi só no ano de 2001, com a invasão dos imóveis supostamente abandonados, que Otto e os irmãos manifestaram interesse, abrindo um boletim de ocorrência para a ocasião. No decorrer do processo, Otto e sua irmã, Marie Lisbeth Bielschowsky, faleceram, herdando a posse os respectivos filhos. Outro irmão de Otto, Peter Robert Gottlieb, outorgou uma procuração a terceiros para que cuidassem do caso devido a sua idade.

 

DESFECHO DO CASO

Conforme consta nos processos disponíveis em consulta ao site do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), ficou “evidente que a invasão do local onde estão situados os imóveis foi comandada por um senhor identificado como Marcelo Ramon Bonella, que posteriormente veio a firmar contrato de locação com os autores, mas acabou sendo despejado do imóvel por falta de pagamento. Nova liderança veio a ocorrer, formando-se uma associação, cujo nome dado foi Associação dos Moradores do Conjunto Residencial Noêmia Nunes, denominada AMOCRENN”. “As identificações dos ocupantes dos imóveis demonstram que há sobrenomes idênticos, informações desencontradas, tudo com vistas a dificultar ao máximo a ação judicial”.

 

VERSÃO DA AMOCRENN

A Associação de Moradores do Conjunto Residencial Noêmia Nunes, em perfil no site habitants.org, relata que “o número de pessoas que residia no local é de aproximadamente 320. Segundo o perfil, 54 famílias habitavam no local, desde 1998, por abandono dos proprietários. São em grande parte trabalhadores, em grande parte informais, de baixa renda, que lutam para regularizar os imóveis. Os proprietários, apesar de possuírem alta renda, morando inclusive na França, nunca investiram no imóvel, mas não querem perdê-lo. Recorreram judicialmente a posse, e indiferentes ao processo em curso, procuram obter novamente a sua propriedade, utilizando de todos os meios possíveis”.

 

O LOCAL APÓS O DESPEJO

Nossa equipe foi até o local na tarde de ontem (19), encontrando os imóveis vazios e com as portas cimentadas. Ainda há nas janelas antenas de TV por assinatura. Entre os imóveis que ocupam quase um quarteirão, há casas com portas de madeira, abrigando inquilinos. Restos de mobília e de roupas ainda estão no quintal dos apartamentos.

 

[…]

 

Em vida, Otto passou a caminhar às 16h – ele achava perigoso andar a noite na cidade.

 

 

P.S.

Franca Cohen Gottlieb, esposa de Otto, passou a receber pensão vitalícia, após a morte do cônjuge ex-servidor aposentado pela Universidade de Brasília. Franca Gottlieb é professora titular da Universidade Santa Úrsula.

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