Pauta Popular fez registros dos vestígios do engenho na Região

Você muito provavelmente já ouviu falar que toda essa região fazia parte de um grande engenho. O Engenho da Pedra, como era conhecido, teve importante papel na economia da cidade, produzindo açúcar, milho, mandioca, feijão, legumes, arroz, cacau, hortaliças e frutas variadas. Havia ali também uma pedra explorada como pedreira, já desaparecida. Da sede da antiga Fazenda do Engenho da Pedra, ainda existem ruínas onde hoje se localiza a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Ramos, na Favela da Igrejinha. No entanto, não há na Internet registros fotográficos recentes das ruínas do engenho. Nem da pedreira. O jornal Pauta Popular traz nessa edição as primeiras fotos da Pedreira e dos vestígios do Engenho da Pedra, que englobava os bairros de Olaria, Ramos, Bonsucesso e parte de Manguinhos.

 

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Foto cedida pela Paróquia N. S. da Conceição de Ramos

 

 

CRONOLOGIA

1565 – Concessão de sesmarias
1570 – Criação do Porto de Inhaúma
1620 – Aquisição dessas terras pela família Souto Mayor
1638 – Fundação do Engenho da Pedra
1738 – Engenho da Pedra passa a se chamar Engenho da Pedra e Bonsucesso
1763 – Capital se transfere de Salvador para o Rio de Janeiro
1868 – Criação da Estrada de Ferro Leopoldina
1870 – Capitão José Fonseca Ramos adquire parte das terras
1886 – Trilhos da Leopoldina Railway chegam até Ramos
1888 – Abolição da escravatura
1897 – Urbanização de Ramos
1923 – Construção da Igreja Nossa Senhora da Conceição de Ramos

Por: Patrick Barbosa, Anna Ventura JUL. 25, 2016

Conforme apontam registros históricos encontrados na dissertação de mestrado de Antônio Carlos Pinto Vieira, fundador do Museu da Maré, defendida na UNIRIO em 2008, “vestígios da antiga Fazenda do Engenho da Pedra ainda existem em ruínas próximo à Igreja Nossa Senhora da Conceição em Ramos”. Nossa equipe foi até o local em busca desses vestígios para registrar imagens da nossa história.

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Foto cedida pela Paróquia N. S. da Conceição de Ramos

Na manhã do domingo (17), por volta das 11h, saímos de Olaria até Ramos, até onde fica a Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Ramos, na Rua Carvalho Moutinho, 200. No trajeto, passamos pela Estrada do Engenho da Pedra, um forte indício da existência do engenho nas proximidades da região. Subimos uma íngrime ladeira até chegar à entrada da igreja: um grande portão que dá acesso a uma estreita escadaria.

No topo, admiramos a vista do local. É possível ver toda a Zona da Leopoldina, desde a Igreja da Penha até a Estação do Teleférico do Alemão. O morro Bela Vista, faz jus ao nome e é sem dúvida uma boa alternativas aos famosos pontos turísticos da região. A investigação foi interrompida quando um dos zeladores perguntou à nossa equipe se procurávamos por alguém.

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Enquanto explicávamos nosso objetivo, o padre Paulo, chegou ao local em um carro de passeio, que após estacionar, passou a guiar nossa visita gratuitamente, nos contando um pouco da história da região. O padre, apaixonado pela memória da igreja, estudou história e, nos contou grande parte do que iremos apresentar nessa matéria e do que fomos capazes de lembrar na redação.

A história da paróquia começou em 23 de setembro de 1923, quando foi construída em estilo neogótico, em homenagem a santa padroeira do bairro, Nossa Senhora da Conceição de Ramos, em um terreno doado pelo português Zacarias Queirós, dono da primeira padaria de Ramos, e, cujo nome foi homenageado em uma rua próxima à Favela da Igrejinha.

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Foto cedida pela Paróquia N. S. da Conceição de Ramos

A comunidade recebeu esse nome quando a igreja doou parte do terreno ao governo militar, com a promessa de ser construída moradia de forma ordenada no local. A promessa não foi cumprida. Anteriormente, essa parte do terreno havia abrigado um hospital que, também por abandono público, encerrou as atividades. Tanto a igreja como a comunidade, localizam-se em no alto da pedra (Morro Bela Vista), onde parte dela foi explorada na antiga pedreira da região.

O passeio começou com a apresentação da arquitetura da paróquia, que sofreu progressivas modificações na estrutura original, vítima de uma época modernista, onde muito se recriminou o arcaico. Padre Paulo revelou que um de seus objetivos é restaurar a igreja para a estrutura que ela tinha quando foi construída.

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A imagem da N. S. da Conceição de Ramos, veio de Portugal na década de 20, e foi restaurada em 2015. Diversos artefatos da época ainda encontram-se em posse da igreja, embora alguns tenham sido perdidos durante as reformas. Datados da época da construção, ainda existem três santos esculpidos artesanalmente, o primeiro sino, o lustre central do altar, um cálice de prata banhando a ouro, a cruz de celebração das missas e diversos registros da época no livro de tombo e em plantas da construção. Todo o restante foi queimado e jogado no abismo paralelo à igreja. Quando questionado sobre a possível existência de preciosidades dentro das imagens, o padre riu, e respondeu que já sacudiu pessoalmente as esculturas.

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Caminhando por dentro das salas, encontramos um quadro da Santa Ceia, original de Roma. O padre disse ter feito orçamentos de escavações no terreno ao lado na busca por possíveis raridades descartadas pela igreja. Nascido em Campo Grande, atualmente mora na casa paroquial nos fundos da igreja. Esta lá há dois anos, e disse à nossa equipe que não troca o local por nada. Apesar da violência, encontra tudo o que precisa no bairro e tem nos fiéis da igreja carinho e admiração. Ele não deixa políticos utilizarem o templo; nunca os apresentou aos fiéis.

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Um dos maiores empecilhos no resgate da memória e restauração do templo é o fator financeiro, garante o padre. “Dizem que esse Wesley Safadão é católico. Se eu o vejo por aqui, garanto que peço uma doação”, disse. O padre conseguiu trazer de volta as missas em latim, nas quintas às 19h e domingos às 16h. Devido à altura da paróquia e a condição física dos fiéis, uma filial foi construída na Rua Tupinambás, 112.

Questionamos o padre sobre a existência dos vestígios do engenho. Ele afirmou que “se eles ainda existem, estão na Favela da Igrejinha”, localizada ao lado da igreja, separada apenas por um portão. O padre, que não tem as chaves do portão, nos ensinou a chegar até a comunidade.

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É inegável a existência da pedreira no local. O terreno no alto da pedra, tem parte dele alugada para a Comlurb. Nossa equipe registrou imagens no penhasco onde funcionava a pedreira, confirmando sua existência e levantando o questionamento sobre a origem do nome Engenho da Pedra – uma fonte secular, aponta a origem para uma pedra plana, onde hoje está a o Piscinão de Ramos (em uma próxima matéria iremos até ela).

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A igreja possui salão para eventos, onde acontecem cerimônias de casamentos e celebração do Ano Novo. A paróquia faz diversas ações no bairro, entre elas a distribuição de 73 cestas básicas por mês e café da manhã para moradores de rua (antigamente doavam quentinhas, mas a Prefeitura proibiu a ação). “A prefeitura não disse nada sobre café da manhã”, disse o padre.

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Encerrado o nosso passeio e a par da incrível história da igreja, padre Paulo diz se preparar para receber visitas como esta nos Jogos Olímpicos. Questionamos se alguém já havia o procurado pela história do local. “Nas últimas semanas, um casal de estrangeiros compareceu aqui, fez diversas fotos, mas eu não estava presente para ajudá-los”, disse. Nos despedimos e fomos para a Favela da Igrejinha, em busca dos vestígios do Engenho.

Ao chegar, um garoto nos perguntou: “Precisam de ajuda?” Expliquei a situação e um deles me disse: “Tem uma pedra enorme ali no terreno abandonado”. Exploramos o local, recolhemos amostras de pedras, mas, foi somente dentro das casas na comunidade que encontramos os vestígios do Engenho.

Quando as primeiras casas começaram a serem construídas ali, as paredes do Engenho foram reaproveitadas na construção dos casebres. Paredões construídos com enormes pedras, fruto da abundante mão de obra escrava. “Moro aqui há 41 anos… Quando cheguei era um hospital, e tudo aqui era de pedra”, disse uma moradora.

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Dentro das casas, encontramos parte das paredes ainda na construção original do Engenho. Mais à frente, um enorme paredão dava alicerce para diversas casas de alvenaria. Alguns moradores cobriram a parede com cimento, outros deixaram no original da construção.

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Um dos moradores interessado no assunto nos disse que estava realizando uma obra dentro de casa, e enormes pedras dificultavam a construção. “Para fazer a obra da cisterna, foi muito complicado, foram três carrinhos de entulho só de pedra, e quatro homens para carregar cada pedra”, disse. Dentro do buraco, foi encontrada uma parede construída com as pedras do engenho, e abaixo, uma outra construída com pedras menores. O morador desistiu da obra depois que três carrinhos quebraram no transporte das pedras.

Feitos os registros e colhido todas as informações que julgamos serem necessárias, nos despedimos e fomos presenteados pelos moradores com garrafinhas de água e o convite para voltarmos quando quiséssemos. Os vestígios do engenho que originou toda a essa região ainda existem, e neles, muita história para ser contada sobre a região. Não perca nossas próximas reportagens sobre a memória da Zona da Leopoldina e do subúrbio carioca.
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P.S.:

Dia 8 de dezembro, dia de Nossa senhora da Conceição de Ramos, acontecem festividades na paróquia.

No terreno da antiga Pedreira, hoje funciona um estacionamento de caminhões da Comlurb, cujo som dos veículos incomoda os párocos durante o repouso noturno.

A igreja e as paredes do engenho não são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Mais fotos você encontra na nossa página na rede social Facebook. Clique aqui para acessá-las.

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