OPINIÃO – Rio, rumo ao Apartheid.

rodape

Jimmy Carter, ex-presidente dos Estados Unidos da América e Prêmio Nobel da Paz,  disse uma vez que o Estado de Israel criou “um sistema de apartheid, com dois povos ocupando a mesma terra, mas completamente separados um do outro – sendo os palestinos privados de seus direitos humanos básicos, com o pretexto de combater a violência”. O Muro da Cisjordânia, construído sob o pretexto de evitar a infiltração de terroristas em Israel, confiscou terras palestinas e segregou a população.

Por aqui, o muro recebeu outro nome: legado olímpico. Sob a farsa do pretexto de resolver os problemas da cidade, os pesados investimentos em áreas já capacitadas culminaram em uma especulação imobiliária que agravou a estratificação da cidade maravilhosa, dividindo a sociedade conforme a classe social.

A TROCA DA ZONA NORTE PELA BARRA DA TIJUCA

O conjunto de bairros da Zona da Leopoldina se parece muito com o distrito de Stratford, na Inglaterra. Uma antiga região industrial que também obteve a promessa de aproveitar os investimentos olímpicos para resgatar uma grande área degradada da cidade. Em Londres deu certo, aqui não. Há duas décadas, quando o Rio viveu pela primeira vez a euforia de concorrer à sede dos Jogos Olímpicos de 2004, o então prefeito Cesar Maia lançou um projeto de revitalização da Zona Norte.

Com Atenas vencendo a disputa, a proposta brasileira de tornar a Ilha do Fundão o centro da competição, com professores e alunos da UFRJ aprendendo e ensinando uma geração de futuros atletas na região da Maré e Complexo do Alemão, mais a criação de um parque ecológico na região (que seria a maior área de lazer da cidade), foram abandonados. A vergonha internacional do esgoto ‘in natura’ na Baía de Guanabara fez com que o Rio perdesse a competição.

No atual modelo olímpico, onde a Barra da Tijuca é o centro esportivo, a cidade escolheu perder a oportunidade se transformar positivamente em função dos jogos. A avaliação é de Gilmar Mascarenhas, pós-doutor em urbanismo e professor de geografia urbana na Universidade do Estado do Rio de janeiro (UERJ). “O Parque Olímpico no Fundão, na Zona Norte, permitiria a construção de instalações esportivas para beneficiar a população mais pobre”, relata o professor.

Já quem concorda com o atual modelo, defende que as condições na Zona da Leopoldina são precárias demais para o evento. “O Comitê Olímpico Internacional (COI), questionou o Canal do Cunha, que é inexplicável; nós prometemos que ele estaria limpo, com golfinhos pulando, o que não foi possível até hoje”, lembra Ronaldo Cezar Coelho (PSDB), que na época comandava o Comitê Rio 2004.

Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), proferiu a seguinte frase sobre a alteração do projeto para a Barra: “Agora, vamos receber os visitantes na sala”. A estratégia de não solucionar os problemas da cidade e sim escondê-los, ficou nítida. Enquanto a Barra é considerada a “sala da casa”, à Zona da Leopoldina sobra o título de esgoto da competição.

O LEGADO OLÍMPICO NA ZONA NORTE

Embora 38% dos cariocas residam na Zona Norte, apenas 12% das áreas de lazer da cidade estão lá. Até as praias atendidas pela Baía de Guanabara não têm condições de balneabilidade devido à alta poluição. Há um grave desequilíbrio no dinamismo econômico entre a Barra da Tijuca e a Zona da Leopoldina.

No Relatório Ambiental Simplificado da implantação da Transcarioca, foi relatado que existe uma “ausência de parques em todos os bairros e a ausência de jardins em Ramos, Olaria, Penha – bairros densamente habitados”. O que não é nenhuma novidade; Carlos Lacerda, Governador do Estado da Guanabara (1960-1965), proferiu o mesmo diagnóstico há meio século, na construção do Parque Ary Barroso.

A única obra Olímpica na Zona da Leopoldina foi o BRT Transcarioca. Um sistema de transportes urbanos que ligam o Aeroporto Internacional Tom Jobim – Galeão à Barra da Tijuca. Felizmente (ou infelizmente), a Zona Norte está no meio do caminho para quem sai do aeroporto internacional com destino à Barra da Tijuca.

OPINIÃO DOS ESPECIALISTAS:

“Só querem privilegiar o mercado. Veja o que ocorre aqui no Rio com as Olimpíadas. Boa parte dos investimentos foi para a Barra, onde já existe infraestrutura básica”. Fernando Janot, conselheiro federal do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

“O Rio deu as costas por muito tempo para a Zona Norte, que é a área mais consolidada da cidade. As pessoas estão indo embora de Bonsucesso. Não dá para construir habitação social em algumas áreas da Zona Oeste, onde não há nem cidade, e deixar a Zona Norte se esvaziar”. Clarisse Linke, vice-diretora do Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP Brasil).

É fundamental para o Rio de Janeiro que a qualidade de vida avance em bairros do subúrbio, e não apenas onde estão os formadores de opinião. Muitas áreas sofrem com décadas de degradação. Qualquer urbanista hoje considera que a cidade deve se expandir para as áreas mais carentes, e não para o Recreio dos Bandeirantes”. Mauro Osório, professor de direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Estamos privilegiando uma zona da cidade já privilegiada, estimulando ainda um aumento histórico da especulação imobiliária. De quem são os interesses por trás disso? O (prefeito) Eduardo Paes foi subprefeito da Barra e todos os interesses econômicos da região estão por trás dele”. Christopher Gaffney, especialista no legado urbano de grandes eventos esportivos.

Os recursos serão muito importantes. Mas, se forem dirigidos prioritariamente para a Barra da Tijuca, a cidade vai sofrer muito. E a grande mudança que uma Olimpíada pode trazer vai ser minimizada porque o conjunto da população terá menos oportunidades do que teria, por exemplo, se os Jogos Olímpicos se concentrassem na área portuária. O Porto, agora, está disponível. Quando as Olimpíadas foram programadas, não havia o acordo entre os três níveis de governo. Os terrenos do Porto estavam impossíveis. Isso mudou”. Sérgio Magalhães, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil.

“As Olimpíadas, com seus BRT’s direcionados para a Barra da Tijuca e com a totalidade de seus equipamentos habitacionais na própria Barra, além da maioria dos esportivos, contrariam frontalmente a posição dos arquitetos do Rio de Janeiro e as últimas tendências internacionais: As Olimpíadas, ao invés de democratizar a cidade torna-a mais elitista, Flavio Ferreira, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

O VERDADEIRO LEGADO PARA A ZONA NORTE

Diferente de Londres, os apartamentos construídos para hospedagem dos atletas não darão lugar a moradias acessíveis à população carente. No Rio foram criados os “Jardins do Rei”, apartamentos construídos para hospedagem na Barra, que podem custar mais de 1 milhão de reais. Em contrapartida, o prefeito Eduardo Paes, afirmou em coletiva de imprensa que “não se faz só a implantação das estações do BRT; faz drenagem, qualifica, faz calçadas, implanta praças, área de lazer“, disse.

No entanto, observando o verdadeiro legado das olimpíadas para essa região, encontramos diversas irregularidades como, a destruição de uma praça de recreação em um terreno em Ramos para a construção do BRT; hoje o local se transformou em um ponto de usuários de drogas e assaltos. O fim de um gramado com brinquedos e campo de futebol soçaite, Na Travessa Viúva Garcia, que virou a estação Cardoso de Morais. A redução em um terço da Praça Professor Mourão Filho, para a criação da estação Santa Luzia.

As consequências vieram em velocidade olímpica. Crianças foram flagradas brincando no corredor expresso dos ônibus BRT Transcarioca. Cerca de 40 árvores não foram reimplantadas em Ramos. Uma das construções mais importantes arquitetonicamente do Rio, o Cine Rosário, permaneceu abandonado em Ramos enquanto construía-se o caríssimo Museu do Amanhã, na praça Mauá. Um homem foi esfaqueado durante assalto dentro de um ônibus do BRT, na altura da estação de Olaria.

Quase dois anos após a inauguração e próximo às Olimpíadas, Ramos e a Zona da Leopoldina continuam no Rio de Janeiro, mas fora da Cidade Olímpica, mesmo sendo caminho obrigatório dos turistas que saem de BRT do Galeão.

A primeira impressão é a que fica…


 

 
Material de Referência:

Instituto Pereira Passos – Rio de Janeiro – Mapa de Uso e Ocupação do Solo: http://portalgeo.rio.rj.gov.br/mapa_digital_rio/?config=config/ipp/usosolo.xml

Instituto Pereira Passos – Rio de Janeiro – Mapa de Limites Geográficos (Bairros, Regiões Administrativas, Áreas de Planejamento):
http://portalgeo.rio.rj.gov.br/mapa_digital_rio/?config=config/ipp/basegeoweb.xml

Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro – Plano Estratégico da Prefeitura do Rio de Janeiro 2009 – 2012

Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro – Secretaria Municipal de Obras Coordenadoria Geral de Obras 5ª Gerência de Obras – Relatório Ambiental Simplificado da implantação da Transcarioca Etapa 2

Reportagens:

ENTREVISTA: Gilmar Mascarenhas – ‘O Rio insistiu em um modelo fora de moda’, diz Gilmar Mascarenhas (Estadão – 13 de fev de 2016)

20 anos depois: candidatura Rio 2004 tinha Fundão como eixo esportivo – (O Globo – 22 de mar de 2016)

Luiz Fernando Janot critica modelos de desenvolvimento sem integração entre bairros (O Globo – 31 de mai de 2015)

Urbanismo aliado ao transporte propõe remodelar Bonsucesso (O Dia – 18 de ago de 2014)

Copa do Mundo e Olimpíada: investimento público, lucro privado (Carta Capital – 26 de jul de 2011)

Em entrevista, urbanista critica concentração de recursos das Olimpíadas na Barra da Tijuca (Jornal O Globo – 09 de out de 2009)

Arquitetos e urbanistas debatem as grandes obras da Cidade no OsteRio (IETS – 2013)

Especialistas criticam mudança da Vila de Mídia e Árbitros (IAB RJ – 19 de mar de 2013)

Olimpíadas: o legado de Barcelona, a experiência de Londres e as perspectivas para o Rio de Janeiro (UrbanMedia Reports – 29 de nov de 2012)

‘Como é que você vai botar o pobre ali?’, diz bilionário ‘dono da Barra da Tijuca’ (BBC Brasil – 10 agosto 2015)

Prefeitura inaugura Transcarioca, o segundo corredor BRT da cidade (Prefeitura do Rio – 01 de junho de 2014)

Paes testa BRT Transcarioca dois dias antes de inauguração com Dilma (Portal G1 – 30 de mai de 2015)

Obras no Rio elevam temperatura do solo em vinte graus (Jornal Extra – 16 de jan de 2015)

Orgulho da Transcarioca (Portal Cidade Olímpica – www.cidadeolimpica.com.br)

Passarela em Ramos está abandonada, com sujeira e tem problema de iluminação (Jornal O Globo 03 de nov de 2014)

Moradores reclamam de obras inacabadas em passarelas no Rio (Portal R7 – Balanço Geral Manhã – Out de 2015)

Ruas completas ao longo do Transcarioca: oficina de desenho e segurança viária (ITDP Brasil – 26 de mai de 2015)

Grade do BRT colocada em curva da Rua Teixeira de Castro expõe motoristas a acidentes (Jornal O Globo – 31 de dezembro de 2014)

Mulher fica gravemente ferida em acidente na Zona Norte do Rio (Jornal O Dia – 11 de novembro de 2015)

Obra para o BRT deixa viaduto em meia pista dez meses após inauguração do corredor (Jornal Extra – 26 de mar de 2015)

Buraco ao lado de viaduto do BRT Transcarioca, em Ramos, é cercado, mas não tem dono (Jornal O Globo – 24 de out de 2014)

Moradores de Ramos, na Zona Norte do Rio, ficam sem área de lazer após obras do BRT (Jornal Extra – 24 de abr de 2015)

Com praças inutilizadas, moradores de Ramos ficam sem opções de lazer (Jornal O Globo – 07 de dez de 2015)

Imagens mostram crianças brincando no meio da pista do BRT, no Rio (Portal G1 – 14 de jan de 2015)

Avenida Brasil vira área de lazer durante interdição das pistas no feriado (RJTV – 23 de Abr de 2014)

É temporada de pipa no corredor do BRT Transcarioca (Folha de S.Paulo – 06 de ago de 2015)

Árvores não foram replantadas em Ramos (Jornal O Globo – 23/10/2015)

Um final feliz para cinemas de rua (Jornal O Dia – 03 de mar de 2012)

Promessa de resgate de cinema em Ramos (Jornal O Globo – 15 de mar de 2014)

Após anos de abandono, antigos cinemas de rua do Rio vivem o suspense da reestreia (Jornal o Globo – 14 de jun de 2015)

Ônibus do BRT Transcarioca é apedrejado na Zona Norte (Jornal O Globo – 28 de set de 2015)

Passageiros relatam rotina de roubos e arrastões no BRT; veja imagens (Portal G1 – 20 de jun de 2015)

Homem é esfaqueado dentro de ônibus do BRT durante assalto na estação de Olaria (Jornal O Globo – 19 de jun de 2015)

Vandalismo no BRT gera prejuízo de R$ 150 mil ao mês; veja flagrantes (Portal G1 – 19 de jun de 2015)

Rotina de medo: Assaltos nos ônibus do BRT sobem 147% (Jornal O Dia – 03 de mai de 2015)

Perguntar não ofende (Jornal O Globo – 11 de abr de 2015)

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