Cordovil: o bairro nasce.

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31, AGO.
Como se deu o processo de transformação da Fazenda Real no bairro? Para começar, o nome do bairro foi uma homenagem à família que por quase dois séculos tinha a fazenda nessas terras. A pedido do Imperador D. Pedro II foi construída a linha férrea que fez a ligação entre o centro da cidade à Petrópolis, para levar a família real até à Cidade Imperial. A parada em Cordovil, ou o que seria a futura estação, foi inaugurada no dia 23 de outubro de 1886. Em 1902 a família Cordovil vendeu as terras para Visconde de Moraes, que loteou a região a partir de 1912.

As terras foram vendidas em 1902 pela necessidade de uso regular do trem que poderia servir de transporte, já que nunca existiram os famosos bondes em Cordovil. O desejo pelo lucro da empresa que assumiu a organização dos trens (E. F. Leopoldina 1886-1975), foi a principal motivação para o loteamento do bairro.

O bairro apresentou no período de 1920 a 1960 um crescimento populacional considerável, mas conseguiu preservar até hoje seu ar de bairro do interior. Belas casas, moradores com um bom convívio, Rio Irajá sendo usado para banhos em família, pesca de peixes… Alguns antigos moradores dizem que se chegava em Madureira pelo rio. Esse quadro de tranquilidade veio a mudar a partir do início dos anos 70. Vamos ver isso agora.

A LUTA DE UM POVO NA CIDADE ALTA

Antes de fazer o registro da criação da Cidade Alta, tenho que voltar um pouco no tempo e mostrar a todos da onde vieram todas as pessoas e por que foram parar ali. As pessoas com mais de 60 anos já ouviram falar da Praia do Pinto, em Ipanema onde ficava a comunidade do Pinto. Essa favela foi criada por volta de 1910 por pescadores e operários que trabalhavam na construção do Jóquei Clube do Brasil. Eles receberam permissão do Governo (prestem bem atenção nisso) para residir no local e seu primeiro morador chegou no ano de 1913.

Praia-do-Pinto
Antiga Favela Praia do Pinto, em Ipanema.

Anos depois, uma reportagem do Jornal do Brasil feita com um dos moradores mais antigos, constatou que a comunidade que estava formada na época da desocupação foi a união de três outras pequenas comunidades: Praia do Meio, Praia-Mar e Favela da Lagoa. Essa nova comunidade se destacava em número de moradores sobre as outras, e, por ser oriunda da Lagoa Rodrigo de Freitas, era comum dizer que a lagoa era a “praia” onde os pintos tomavam banho para se refrescar, que também fico conhecida como Praia dos Pintos (“Praia do Pinto acaba e deixa Ipanema que ajudou a construir” Jornal do Brasil, 11/05/1969).

Os anos estavam se passando, o crescimento da Favela do Pinto estava cada vez mais perceptível, e foi facilitado pela linha de bondes que na época, chegou ao subúrbio do Leblon (que também estava crescendo) onde estava a comunidade. Esses moradores ajudaram muito no crescimento tanto do Leblon tanto de Ipanema. Ajudaram principalmente com a mão-de-obra na construção de prédios e da infra-estrutura urbana, como o sistema de esgoto.

Em 1968, se iniciou um grande programa de remoção do Rio, a maior já realizada, o órgão responsável por essas remoções foi a Coordenação de Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana (CHISAM), autarquia do Governo Militar em conjunto com o Governo da Guanabara, que removeu 175 mil moradores de 62 favelas, transferindo-os para 35.517 unidades habitacionais, chamados de conjuntos, localizados na Zona Norte e Oeste, como Cidade Alta, Quitungo, Guaporé e Cidade de Deus. A Justificativa do governo para a remoção era para socializar a família favelada, transformar a família invasora em família dona de sua terra, de sua casa.

Confira abaixo trechos de um documento emitido pela secretaria:

“Invasora de propriedades alheias, com todas as características de marginalização e insegurança que a cercam, em titular de casa própria. Como consequência, chegar-se-ia à total integração dessas famílias na comunidade, principalmente no que se refere à forma de habitar, pensar e viver”.(CHISAM, 1971: 16).

Mas, vamos voltar um pouco o contexto. Lembra que escrevi que o Governo autorizou a instalação deles no local? Então onde essas pessoas estavam quando a mudança aconteceu de suas terras (terras estas doadas pelo próprio governo a essas pessoas que pagaram por esse pedaço de chão com seu suor e trabalho)? Segundo o Governo da época, esses conjuntos habitacionais construiriam um novo tipo de cidadão, um cidadão não favelizado e integrado com a sociedade, pagador de impostos, incorporado ao sistema, respeitador das leis e com bons hábitos (como se moradores de favelas não os tivessem)… Tinham de denegrir a imagem da favela, transformar a comunidade em um lugar ruim de viver.

O ambiente é sem dúvida desfavorável. (…) É difícil, senão extremamente impossível, recuperar homens, mulheres e crianças em ambiente como o das favelas. Pelo que optamos pelo árduo, mas frutífero, trabalho de erradicação”.(CHISAM, 1971: 31).

Então no dia 23 de março de 1969 se iniciou o processo de remoção das famílias para os conjuntos habitacionais. Na manhã desse dia as famílias deveriam já estar prontas com suas coisas e pertences arrumados, que os funcionários da CHISAM e os assistentes da Secretaria de Serviços Sociais ajudariam no processo de remoção, mas claro que também estavam as tropas da Polícia Civil e Militar para combater qualquer tipo de protestos, reocupação e roubos, além de imprensa e curiosos.

Já nesse dia desde cedo, a mando da CHISAM, nenhuma casa da favela tinha luz ou água. O Departamento de Limpeza Urbana (DLU) ficou responsável em derrubar as casas e limpar o terreno para novo uso. Depois de cinco dias, a Cidade Alta estava recebendo seus primeiros moradores e teve data de inauguração dia 28 de março de 1969.

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Vista aérea da Cidade Alta.

Bem, o Governo colocou todo aquele povo na Cidade Alta, arrumados nos prédios com água e luz, mais como sempre, não se preocupou com uma parcela da população que chegava do Nordeste e/ou simplesmente perdeu sua habitação devido a esses programas do Governo Militar.

Iniciou-se assim uma imigração para a Cidade Alta e a construção de barracos, sem qualquer controle por parte do Governo, o que ocasionou a ligação clandestina de luz e o que contribuiu para matar o Rio Irajá. A ligação clandestina de água e o despejo de resíduos humanos no rio contribuíram para a sua poluição. Claro, não foi só culpa da Cidade Alta, mas também de todas as comunidades que o cercam desde Madureira e também de algumas empresas emissoras de poluição.

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