Bom comércio, bom acesso, Bonsucesso.

ABERTURA

O acesso fácil ao centro da cidade, o comércio variado e uma certa sensação de tranquilidade, após as operações policiais no Complexo do Alemão, são fatores que atraem novos moradores a Bonsucesso, um dos bairros mais tradicionais da Zona da Leopoldina. O valor do metro quadrado subiu 15% para os apartamentos e 26% para as casas nos últimos seis meses, segundo o Secovi Rio (2012), o que pode ser atribuído à falta de oferta de novas unidades. Mas a região também tem seus atropelos. Problemas de saneamento, limpeza urbana e dragagem dos rios fazem com que diversas ruas fiquem inundadas durante as chuvas de verão. Os engarrafamentos da Avenida Brasil parecem deixar o Centro mais distante, e a falta de uma vida cultural intensa desagrada aos jovens.

Bonsucesso é um bairro de classe média da Zona Norte do Rio de Janeiro, com aproximadamente 2,2 km e 20 mil habitantes (99° lugar no ranking de população, em 160 bairros), de acordo com dados do GeoRio (2012). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,861, considerado alto, e com expectativa de vida de 75 anos. É importante notar que os dados da Prefeitura separam Bonsucesso da região da Maré.

O nome é herança de Cecília Vieira de Bonsucesso, proprietária durante o período colonial da Fazenda do Engenho da Pedra. As terras, então conhecidas como “campos de Bonsucesso”, localizavam-se na região que hoje abriga um dos pontos com maior diversidade de comércio e serviços da Zona Norte.

O bairro possui raízes no desenvolvimento do Rio de Janeiro. Durante o período colonial, a antiga Estrada do Engenho da Pedra ligava os engenhos aos portos do Recôncavo, que teve papel decisivo na economia agropecuária carioca até as primeiras décadas do século XX. A Estrada Nova do Engenho da Pedra, hoje Avenida Teixeira de Castro, tornou-se uma das vias de circulação mais importantes da Leopoldina.

Mas é ao longo da rua Cardoso de Morais que o comércio se concentra. Bancos, lojas de roupas, farmácias e centros comerciais dividem espaço com comércio informal das barracas que dificultam a circulação pelas ruas. O movimento de ônibus, vans e kombis também é intenso.

Um dos símbolos tradicionais é o Bonsucesso Futebol Clube. Fundado em 1913, durante muitas décadas teve presença marcante no futebol carioca e revelou diversos jogadores. Em 1931 deu-se a mudança para um espaço mais estruturado na rua Teixeira de Castro. Na área social, os bailes na sede do clube fizeram sucesso na região nos anos 70. E ainda hoje o espaço é utilizado para festas, feiras de confecção e eventos.

O estádio do clube, batizado de Leônidas da Silva, presta homenagem a seu mais ilustre jogador. Reza a lenda que o atacante da seleção brasileira, conhecido como “Diamante Negro”, teria inventado o gol de bicicleta durante uma partida entre os times do Bonsucesso e do Carioca, em 24 de abril de 1932, com vitória do Bonsucesso por 5 a 2.

Ir, vir e viver em Bonsucesso

Uma das características importantes do bairro é o acesso. Cortado pelo ramal ferroviário da Leopoldina – hoje administrado pela Supervia –, está ao lado da Avenida Brasil e próximo à Linha Vermelha. Possui entradas para a Linha Amarela e fica a 20 minutos do Aeroporto Internacional Tom Jobim. As estações mais próximas do metrô são Maria da Graça e Del Castilho, próximo aos shoppings de Del Castilho e Pilares. Distante apenas 13 km do Centro do Rio, Bonsucesso é considerado um bairro bem servido de transporte, apesar dos engarrafamentos comuns em direção à Praça das Nações e Avenida Brasil. Em tempos de obras para revitalização do Porto, ir do subúrbio para o Centro em dias de semana pode demorar de 40 minutos a uma hora, mas nos finais de semana é possível percorrer o mesmo caminho na metade do tempo.

Mesmo assim, foi pela acessibilidade que a professora Márcia Nascimento e sua filha Mariana Nascimento, publicitária, escolheram Bonsucesso há pouco mais de cinco anos. “Morávamos com meus pais na Praça Seca (Zona Oeste do Rio). Eles já estão doentes e precisavam morar em um bairro tranquilo, mas para isso tive que abrir mão dos meus empregos”, lamenta Márcia. Mariana começou a trabalhar em Santa Teresa, fazendo um percurso que durava de duas a duas horas e meia.

Para Márcia, Bonsucesso é mesmo um local com ótima acessibilidade e oferta de serviços, mas sem vida cultural. Porém, ela considera o bairro ótimo para os a população idosa: “Aqui tem tudo que eles adoram: farmácia, padaria, supermercado, banco e praça”.

O Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM) – fundado há 43 anos, com 28 cursos de graduação e 25 mil estudantes – mantém o Programa Universidade Aberta à Terceira Idade (UNATI), que oferece oficinas de nutrição, artesanato, informática, fisioterapia, alfabetização e passeios culturais, e o Projeto Doutores da Beleza, que presta atendimento na área de estética a idosos de abrigos da cidade.

Quem mora ou trabalha na região costuma frequentar os bares próximos ao estádio do Bonsucesso. Com mesas na calçada e DVDs de música projetados em um telão, o happy hour às quintas e sextas dá movimento noturno ao bairro, o que não acontece nos fins de semana. Hoje não há mais teatros. Resta apenas um cinema. Dos anos 50 aos 80 havia cinemas de rua, e nos anos 90 a UNISUAM chegou a abrir um teatro, no entanto com o passar dos anos fecharam com a concorrência dos shoppings.

Entre os problemas do bairro, merece registro o crescimento da população de rua. O bairro fica próximo a áreas de consumo de crack, notadamente em comunidades do bairro vizinho Manguinhos, localizadas a menos de 2 km do centro de Bonsucesso. O vício em drogas caracteriza-se como um dos maiores problemas de saúde pública dos grandes centros urbanos do país. Além disso, vazamentos de esgoto, lixo nas ruas e alagamentos durante o período de chuvas são questões recorrentes em Bonsucesso.

Revitalização

O advogado e corretor Roberto Mota trabalha há 27 anos com corretagem imobiliária na região. Ele conta que viu muitos altos e baixos. “Por muito tempo o bairro sofreu com a violência, principalmente na área do Morro do Adeus e Avenida dos Democráticos. Melhorou muito com a ocupação do Complexo do Alemão”, afirma, sobre a ação que começou em novembro de 2010, e resultou na instalação de Unidades de Polícia Pacificadora.

O corretor cita a construção do Teleférico do Alemão, ligado à Supervia, como parte da revitalização do bairro. Inaugurado em julho de 2011, com a presença da presidente Dilma Rousseff, o primeiro sistema de transporte de massa por cabo do país tem 3,5 quilômetros de extensão. Em abril de 2012, o teleférico completou a marca de 2 milhões de passageiros transportados, com média de 10 mil passageiros por dia. A passagem custa R$ 1,00 com os cartões Bilhete Único e RioCard e a tarifa cobrada na bilheteria, em dinheiro, é de R$ 5 reais. Moradores podem cadastrar-se para garantir duas passagens gratuitas por dia, ida e volta. Ligado à estação de trem de Bonsucesso, o teleférico mudou o visual da Praça das Nações.

Segundo Roberto Mota, a procura por imóveis (compra ou aluguel) no bairro é grande. “Não fico 30 dias sem negociar um imóvel”, afirma. Segundo ele, um perfil comum do bairro é o estudante universitário da UNISUAM ou UFRJ (na Ilha do Fundão, a 15 minutos de carro) que quer ficar perto de onde estuda. Outro perfil é o das pessoas que já viveram no bairro e gostariam de morar perto dos parentes. Sobre os imóveis comerciais, Roberto aponta que a maioria das lojas alugadas se destina à venda de roupas. As salas comerciais são a escolha de profissionais liberais, como advogados, médicos, dentistas.

Com quase a cidade inteira em ritmo de valorização imobiliária acima da inflação, Bonsucesso não fica trás. Segundo dados do Secovi Rio, de setembro de 2011 a abril de 2012 houve uma valorização de 15% no valor do metro quadrado em apartamentos e 26,1% em casas. São poucos os imóveis novos, mas uma construção tem chamado atenção no bairro. Nos moldes dos condomínios residenciais modernos, com piscina, quadra de esportes, sauna e churrasqueira, o Bonsucesso Residencial Clube foi erguido na esquina entre a rua Adail e Cardoso de Morais. Os 66 apartamentos de dois quartos (uma suíte) foram negociados acima de R$ 200 mil.

Passeio entre doces e salgados

Frequentar o centro de Bonsucesso no sábado de manhã é o passatempo de muitos moradores. Com o comércio em pleno vapor, chega a ficar difícil andar nas calçadas, cheias de camelôs, representantes de óticas, panfleteiros com ofertas de empréstimo financeiro e anunciantes de cursos de informática. Motoristas de vans e kombis anunciam seus itinerários. Quem circula por ali costuma bater ponto na loja e doces, salgados e tortas Tia Solange, na rua Baturité, na altura da loja C&A.

Empresa inteiramente familiar, a Tia Solange tem clientes em toda a área da Leopoldina e Ilha do Governador, com entregas até na Barra da Tijuca. Foi aberta em 1978, quando o movimento em Bonsucesso não era tão intenso, mas havia comércio e mais de 20 bancos, clientela suficiente para Eliezér Almeida Silva e sua mulher, a cozinheira Solange, que dá nome à loja. As coisas melhoraram no fim dos anos 90, quando a Prefeitura mudou a mão de algumas ruas, e parte do trânsito começou a passar justamente pela rua Baturité. Seu Eliezér preferiu não revelar o volume de vendas da loja, mas sua entrevista foi interrompida diversas vezes por pessoas que foram até lá, numa proporção de 20 pessoas em menos de 10 minutos.

Histórias de Mellão e azulejos

O número 61 da rua Cardoso de Morais, prédio conhecido como “Mellão”– de Costa Melo – , costuma atrair um grande fluxo de pessoas. Ele ganhou esse apelido graças a seu criador, Álvaro da Costa Mello, um dos nomes mais importantes da história da Leopoldina. Português radicado no Brasil no final da década de 20 do século passado, Álvaro foi dono de várias padarias de sucesso na região, até que começou a investir em construção civil.

Segundo a historiadora Cristiane Prata, ele iniciou a construção de prédios e lojas comerciais nos anos 50 em áreas sem valor comercial, como Brás de Pina e Praça do Carmo, e acabou alavancando o progresso desses bairros. Como Ramos era o bairro mais valorizado na época, Álvaro dedicou-se a Bonsucesso. O Mellão é justamente seu maior prédio comercial, com 14 pavimentos.

O cruzamento entre as avenidas Teixeira de Castro, Cardoso de Morais e rua Bonsucesso, que no passado formava o Largo de Bonsucesso, foi rebatizado de Praça Álvaro da Costa Mello. Uma das suas marcas era o uso de azulejos coloridos na fachada dos prédios, com o seu nome escrito também em azulejos no topo. Vários deles são de azulejos azuis e brancos, e viraram marca registrada da região.

Os prédios construídos por Álvaro da Costa Mello são considerados uma referência no progresso de Bonsucesso, que começara a ganhar forma em 1914, quando o engenheiro Guilherme Maxwell, então dono das terras do antigo Engenho da Pedra, decidiu urbanizá-las. Sob a influência da Primeira Guerra Mundial, batizou várias ruas em homenagem aos países aliados contra a Alemanha. Daí surgiram a Praça das Nações e as avenidas Paris, Londres, Roma, Bruxelas e Nova York. Ele mesmo também ganhou uma avenida do bairro.

Até os anos 90, as ruas de Bonsucesso mais próximas à Avenida Brasil formavam um centro industrial. O aumento da violência relacionado ao crescimento de comunidades em torno dessa via expressa afugentou muitas empresas. Ainda hoje algumas gráficas e transportadoras resistem, porém o bairro mudou de vez seu perfil de industrial para comercial.

*essa matéria também foi publicada na revista da SECOVIRIO – Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro.

Sobre as autoras desta matéria:

Priscila Biancovilli mora há 15 anos

Mudei-me para Bonsucesso com meus pais em 2001. Minha mãe queria morar perto da minha avó, que vive em Ramos, bairro vizinho. Antes, havia morado toda minha vida em Parada de Lucas, local de infraestrutura bastante precária. O contraste de meu antigo bairro com o novo me deixou bastante impressionada. Para mim, era muito bom ter lojas de todos os tipos, médicos, bancos, farmácias e restaurantes a alguns passos de casa. A proximidade com a Avenida Brasil também foi vista com bons olhos, devido à facilidade de transporte para diversas regiões do Rio e região metropolitana.

Natalia Weber morou por 12 anos

Bonsucesso foi um bairro por onde sempre circulei, pois minha avó morava e continua lá. Foi onde meu pai foi criado, onde minha mãe começou a carreira como bancária, e onde passei grande parte da infância. Mais tarde, estabelecemos por lá nossa vida de vez. Até hoje, mesmo morando em outro bairro, penso em ir a Bonsucesso para resolver qualquer coisa, em vez de procurar serviços em outros lugares. Por conta do acesso, facilidades e vínculo familiar, faço parte do grupo que vai sempre retornar ao bairro.

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